Sobre os Nossos Jovens. Algumas palavras

19/OUT – Claudia Grabois – Advogada e Consultora Jurídica

Não era canção ou prece, era cor em forma de silêncio. Assim, comecei o dia, sem saber se era tristeza ou alegria.

Isso por que somos ao mesmo tempo muitos que se encondem em um; e também somos um. Me perguntam quem sou e não tenho a resposta, ainda não estou pronta para ser terminada. Digo o básico.

Sou mãe, profissional, dona de casa, ativista por algumas causas e, a cada dia, me indago sobre o mistério da vida e das vidas. Fato é que me apaixono pelos detalhes das pessoas, acho lindo sorrisos, gestos, movimentos, abraços, palavras e olhares.

Sobre sorrisos e olhares existe um milagre a parte, se você ainda não descobriu ouse tentar e descubra que a sua tribo pode ser bem maior do que um grupo pequeno de pessoas. Não significa amizade, necessariamente, apenas empatia e sentimento de transformação.

Por outro lado, a vida exige uma roupagem mais seria, que nem sempre permite exposições e experimentos, talvez, por isso, as mães ensinem para as crianças como se comportar de acordo com a sociedade, desde cedo; elas sabem que a vida é uma caminhada e nada mais natural que proteger a cria. Não apenas mães, mas, pais, tios, avós, e isso em todos os arranjos familiares; e podemos aqui equiparar proteção a amor.

A questão é que equacionamos desde cedo amor, paixão, razão, angustia, ansiedade e sentimentos ainda desconhecidos. Aprendemos a equacionar para agradar o outro e para poupar sofrimento que acreditamos estar por vir. Quando adolescentes temos a necessidade de pertencer, ao que quer que seja e, quando crianças, sem saber, ensaiamos e vivenciamos a tentativa de pertencimento na vida adulta.

E na vida adulta, muitos se deparam com questionamentos, cujas respostas não estão disponíveis em manuais; amadurecer é tarefa pessoal e intransferível. Particularmente, sempre achei injusto a passagem da adolescência para a juventude, parece que de um dia para o outro as responsabilidades batem a porta, de surpresa. Acredito que a carga seja enorme, pois as cobranças não cessam. Oras, ontem mesmo o que era permitido já não é mais e ser adulto se torna necessidade imperiosa, pois, sim, as cobranças chegam, e rápido.

Os jovens passam a lidar com as leis, com a sociedade, sem qualquer preparo, em um mundo nada acolhedor, por vezes.  Alguns jamais tiveram estrutura familiar, cuidado, carinho, proteção ou um lar, e outros, por sua vez, saem de um lar de cuidados, afetos e “proteção” para encarar de frente a nova vida, e haja coragem. Por isso, acredito, jovens adultos nem sempre estarão preparados para os enfrentamentos da vida, mas, ao longo da infância e adolescência, podemos tentar fornecer suportes necessários, digo isso, pois não temos bola de cristal para adivinhar o futuro e o que podemos fazer é ajudar a alçar voo; e sabemos que não é tarefa fácil.

Ao lidar com filhos adolescentes me vejo neste lugar e, na lida diária da minha profissão, retorno ao mesmo lugar de “complexitudes”.

Ao mesmo tempo, friso aqui, não poderia deixar de dizer que reflito sobre o acolhimento e suportes necessários que os governos deveriam oferecer para adolescentes e jovens que cresceram sem qualquer estrutura familiar, sem afetos, em situação de vulnerabilidade, como mencionei acima. Penso também ser preciso tirar as leis do papel, facilitar e agilizar o direito a ter e viver em família, de ser cuidado, o que,  por sinal, vem a ser direito da criança e do adolescente. O art 227 da Constituição Federal existe e não pode ficar no papel.

E muitos dirão, mas não é meu problema, e eu continuarei a pensar e a ousar dizer, humildemente, aja e tenha pressa como se fosse o seu filho. Afinal, a sociedade é de todos, e o vento que chega aqui tem efeitos por la e vice versa. Por fim, e questão de egoísmo, que seja, precisamos nos preocupar com o outro, não como se tivéssemos fazendo caridade, mas como medida de justiça e de proteção para os nossos próprios filhos, sobrinhos e pessoas queridas.

Termino com uma frase muito antiga do rabino Hilel, que extendo aos desconhecidos, com os quais a alteridade, pelo menos, também é’ indispensável “Não julgue seu amigo até que você esteja no lugar dele.”  Desafio difícil, mas, certamente, possível. Uma doce caminhada para todas e todos!

Por Claudia Grabois
Conteúdo é de responsabilidade do colunista (Ano 2016)

http://www.elizabethmonteiro.com.br/post/49/sobre-os-nossos-jovens.aspx


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